16 de jun de 2009

Tão abstrata é a idéia do teu ser.
Que me vem de te olhar, que, ao entreter.
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista.
E nada fica em meu olhar, e dista.
Teu corpo do meu ver tão longemente.
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho.
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Análise, Fernando Pessoa

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