5 de mai de 2010


Por esta solidão, que não consente
Nem do sol, nem da lua a claridade,
Ralado o peito pela saudade
Dou mil gemidos a Marília ausente:

De seus crimes a mancha inda recente
Lava Amor, e triunfa da verdade;
A beleza, apesar da falsidade,
Me ocupa o coração, me ocupa a mente:

Lembram-me aqueles olhos tentadores,
Aquelas mãos, aquele riso, aquela
Boca suave, que respira amores…
Ah! Trazei-me, ilusões, a ingrata, a bela!

Pintai-me vós, oh sonhos, entre as flores
Suspirando outra vez nos braços dela!

Bocage, in ‘Rimas’

Um comentário:

Abdoul Hakime Goul Djounoubi disse...

Ah, toda essa energia incontida, essa forte vibração... só poderia ser mesmo de Bocage! Grande poeta, um dos meus favoritos, junto com Leminski, Florbela Espanca, Ary dos Santos, Saadi, Khayyám, Beaudelaire... Mas estes versos eu ainda não conhecia. São de qual livro dele?

Ah, gostei de teu blogue, estou a seguir-te, já.

Beijos, amiga. Tudo de bom.